13 março 2009

Há beleza em pintar o feio? Uma reflexão sobre a arte de Michael Kvium

(O artista dinamarquês Michael Kvium, para quem a homem ainda está num pântano, diante de uma de suas telas. Foto: Aros)


A primeira vez que tive contato com uma pintura de Michael Kvium foi apenas há algumas semanas atrás, quando visitei o Statens Museum, em Copenhaguem. 

Entre inúmeras outras telas de artistas dinamarqueses, expostas numa sala especial, estava "Cena de Rodeio", a qual chamou demais minha atenção. Primeiro, o choque. O enorme quadro trazia uma mulher "monstro", nua, grande e gorda, numa situação de submissão e cujo rosto e olhos mostravam grande sofrimento. 

Sentei-me em frente àquela imagem e escrevi algumas linhas sobre o que via. Anotei dados do quadro e do pintor e fiquei com duas fortes idéias na cabeça: 1. que a obra de arte pode falar mais do que muitas milhares de palavras e 2. se for boa conseguirá fazer com que quase todos que a vejam sintam e pensem coisas muito semelhantes. Naquele momento eu acreditei que Michael Kvium me dizia certas coisas a partir de sua pintura que ele diria a qualquer outro que por ali passasse. 

Foi a busca por compartilhar minha descoberta sobre o pintor e tentar constatar essas idéias que levou-me a reproduzir a tela aqui no blog e a criar a seção "O que você vê nessa obra?", na qual muitos de vocês participaram enviando comentários reflexivos e interessantes, o que foi muito legal mesmo da parte de vocês.


(Michaek Kvium, Cena de Rodeio, 1995)

Após os comentários, eu busquei informações sobre Michael Kvium, sobre sua obra em geral e sobre a pintura em questão. Mesmo a net não sendo a via mais adequada para se apreciar obra de arte, pesquisei outras obras de Kvium, sobretudo as que foram produzidas em datas não muito distantes. Olhei com calma cada uma que encontrei e tentei analisá-las separadas e, também, juntas. Li também dezenas de artigos, a maioria em dinamarquês (que traduzi com ajuda do google e dos meus poucos conhecimentos de sueco) e alguns outros em inglês. 

Talvez vocês pensem que eu esteja levando a sério demais uma "brincadeira" do blog ou aquela tela "feia", como alguns de vocês acharam, que coloquei aqui, mas a verdade é que eu me interessei demais pela obra do artista. Encontrei material muito mais vasto e interessante do que imaginava quando pesquisava e isso foi muito bom para mim. Rendeu-me material e idéias não só para este post, mas para trabalho posterior. Além disso, eu me empolgo mesmo porque esse é meu "trabalho" e é isso que eu espero fazer melhor e melhor, quando voltar ao Brasil ou por onde estiver, como professora, crítica de arte, ou o que seja. 


Sobre os comentários feitos à tela "Cena de Rodeio" 

Primeiro, deixa eu lembrar que cada um pode e tem o direito de ver na tela o que bem entender. A leitura da obra de arte é livre. Você pode amá-la ou odiá-la. E cada qual pode ter razões muito diferentes para isso. 

Por outro lado, se essa leitura subjetiva que cada um pode fazer da obra é rica e livre, ela não é capaz de dizer sozinha se uma obra, uma pintura como "Cena de rodeio", é ou não uma obra de arte. É preciso que a gente se atenha com bastante atenção em como a tela é pintada e o que pode estar por trás desse nosso "gosto! não gosto!". Os porquês, buscados ali na pintura mesmo, é que podem nos ajudar a ver o valor (ou não) da obra do pintor da cena de rodeio. 

Nas leituras de vocês houve um quase consenso. A maioria achou que a mulher estava sendo retratada de forma grotesca, feia e submissa. Alguns sugeriram que essa seria a visão que o mundo masculino tem da mulher e que o quadro passava sentimentos como dor, sofrimento, submissão, poder. Mais de um disse que o pintor queria discutir a questão do mundo masculino e do mundo feminino, o que também foi bem interessante. Poucos de vocês deram detalhes da pintura, em si, o que me ajudaria a entender melhor porque é que vocês estavam vendo x ou y na tela. Vejam como exemplo a análise da Daniela: 

"...Me chama a atenção a diferença de tamanho dos dois personagens e o papel que eles representam. Poderia dizer que este quadro simboliza a dominação do homem em relação a mulher."

Embora eu possa chegar a uma conclusão diferente observando o mesmo detalhe, o legal é pensar que quanto mais explicamos o que estamos vendo ali exposto na pintura é que conseguimos chegar mais perto do que realmente ela seja. Por isso, analisar como a Dani normalmente ajuda ainda mais. 

O tamanho da mulher também me chamou muito a atenção, mas minha leitura lá no Museu, no primeiro momento que vi a pintura, foi por uma outra via. Não estou afirmando que ela é a correta, mas vou tentar expô-la e relacioná-la com o que vi depois nas outras telas do artista, para ver se consigo entrar melhor em "Cena de rodeio". 

Se pensarmos nessa mulher como sendo mãe e na figura masculina pequenina, brincando em cima dela, como seu filho, eu acredito que dá para dar conta de muitos detalhes do quadro. De fato a mulher é enorme porque seu papel incluiria muito mais responsabilidade, conhecimento, autoridade do que a do filho que ela carrega ali nas costas. O menino, quem deveria receber e tentar seguir as regras da mãe, dominou completamente a cena do rodeio. Os papéis e a autoridade estão tão invertidos que a mãe, animalizada, literalmente montada pela criança, não consegue ter ânimo sequer de olhar acima e reagir. 

Estaria Michael Kvium trazendo a questão das psicologias infantis, muito difundidas nos anos 90, e o paradoxo que se tornou a sociedade moderna, quando se sente perdida dentre as próprias regras que criou, como liberdade, diálogo, autonomia etc?  

A mulher alí simboliza apenas uma mãe sem poder diante do poder e das exigências de seu filho mimado? Ou ela simboliza mais? Talvez a sociedade moderna (ser feminino), sobre a qual Kvium quer refletir, diante dos problemas e domínios que parecem pequenos, mas que distorcem os ideias que essa mesma sociedade criou?

Talvez. Eu gosto bastante da leitura da maternidade e do conflito entre responsabilidade, amor e ódio num relacionamento amoroso. 

Também é bem possível pensar, como a Fátima e outros de vocês sugeriram, que o quadro é uma representação do domínio do homem sobre a mulher na sociedade. É possível, neste caso, olhar para a sombra refletida no palco do rodeio para perceber como lá as duas figuras não são tão desproporcionais assim. Elas passam a ter o mesmo tamanho, mas a mulher perde sua humanidade, ela se torna um animal. Dominada, subjugada ao aspecto sexual ela perde seu valor e se torna tão vítima inocente quanto os animais dominados pelo homem, como lembrou a Suyaen. 

Talvez por tudo que represente e pela forma como Kvium expôs a mulher na tela, seja mesmo uma obra difícil de pensar em ter numa sala de estar, como lembrou a Lilás, mas o valor da obra é inegável bem como a importância do pintor para a arte contemporânea. Não conseguir tê-la facilmente decorando nossa sala pode ser ainda mais um valor que se some à pintura, já que a intenção de Kvium era mais que criar algo para agradar, mas para desagradar e questionar intecionalmente.





Pintura espelho: reconhecer o grotesco nas ações diárias

Fazendo uma análise rápida do estilo de Kvium eu chamaria atenção para o fato de que suas pinturas, apesar de contemporâneas, são realistas. Nós reconhecemos facilmente a mulher, a figura masculina etc. Kvium usa um realismo diferente para expressar o que quer. Ele exagera nos traços que quer ressaltar e cria um aspecto meio fantasioso para seu personagem. Ele não retrata a realidade, mas ele usa técnicas de pintura usadas pelos artistas do barroco, como Goya, por exemplo, para dar dramaticidade ao tema que quer tratar. Eu li num artigo que Kvium segue também a linha do espanhol Velásquez, mas eu não consegui ver isso nas telas que encontrei, a não ser talvez nas cores de algumas delas. Eu reconheci muito a obra de Francisco Goya. E me lembro que o choque que tive diante de telas de Goya, no Museu do Prado, em Madrid (o primeiro museu internacional que visitei há alguns anos atrás), foi muito parecido com o que tive frente a Kvium, embora de proporção maior. 

Dêem uma olhada na tela do espanhol e depois na do dinamarquês. A inspiração de Kvium parece ter sido claramente o "Saturno" de Goya. Com as devidas diferenças, Kvium busca na memória da história da arte a dramaticidade e a controvérsia que Goya conseguiu com sua tela para compor a sua. É claro que seu objetivo não é tratar de mitologia, mas a vida mais que real, diariamente experimentada por homens e mulheres, embora quase sempre negada como inexistente.




("Saturno devora seu filho", Francisco Goya, 1820)


("Uma cena de cozinha, Michael Kvium, 1986)

Essa outra tela de Kvium é ainda mais chocante e dramática do que "Cena de rodeio". Quando encontrei-a em alguns sites ela me pareceu confirmar minha tese de que Kvium está pensando as relações humanas dentro de casa, em particular, as conturbadas e ambíguas relações entre pais e filhos, mulher e marido (ou homem e mulher, se preferirem). 

Acho que é possível fazer uma leitura conjunta de "Cena de rodeio", "Uma cena de cozinha", "Mãe" e "Uma cena de depressão" feitas entre 1986 e 1995. Em todas elas há o que é intolerável num relacionamento familiar: o desrespeito e autoritarismo, a violência, o abuso sexual e abuso do poder, a falta de motivação e desespero. Nessas cenas, Kvium parece querer chamar atenção para esses estreitos, mas frágeis laços que unem os seres humanos próximos. 

Ele mesmo, em entrevista, disse que em sua casa, onde a mãe e o pai eram intelectuais, nunca se falava, não havia uma relação forte de carinho e demonstração afetiva. Em certos momentos, ele sentia que podia fazer tudo enquanto criança, porque não havia ninguém para lhe impor regras. 

Acabei também encontrando em algumas outras entrevistas dadas por ele no qual ele afirma que seus quadros "são como um mergulho profundo num pesadelo", porque ele não pinta algo que as pessoas não saibam do que se trata, elas reconhecem, de algum modo, o que está ali, porque, lá no fundo, esse mundo de horrores também faz parte do cotidiano delas. 



("Mãe", Michael Kvium, 1986)

Kvium faz questão de pôr à mostra aqueles defeitos, culpas e ações as quais cometemos, mas dos quais não temos orgulho e preferimos "varrer pôr baixo do tapete". Kvium expõem o defeito e o feio do ser humano na esperança que isso o torne melhor.

Kvium diz que sua arte é uma arte que quer dizer "não devemos deixar de olhar criticamente todo o mundo a nossa volta". Ele afirma estar preocupado com as condições que o desenvolvimento cultural, social e político da humanidade criaram para nós. O que ele vê são tendências no sentido de uma crescente insensibilidade moral e emocional, sexualidade desenfreada, má consciência coletiva, solidão existencial e pavor e um irresponsável e quase auto-destrutiva devastação do ambiente da qual somos parte". 

O artista não está sozinho nisso tudo. Michael Kvium fez parte, nos anos 90, de um grupo de artistas dinamarqueses, o Eyegoblack, que rodou o mundo, inclusive o Brasil, expondo seus trabalhos que tinham em comum essa leitura subjetiva do mundo interior dos indivíduos. 

Michael Kvium se destacava com seus personagens grotescos e não deixava de assustar os que por suas telas passavam, mas, para ele, não há segred. Seu trabalho baseia-se no reconhecimento e, embora possamos achar que sua pintura seja chocante, "a realidade é mil vezes pior. Olhe para todas as atrocidades que os seres humanos cometem", diz ele. Por que então fazer de conta que elas não existem?

Depois de ver "Cena de Rodeio" e essas outras telas de Kvium e ouvir de vocês o que acharam da tela eu não sei se minhas teorias se sustentam de todo. Talvez um pouco. Acho que todas nós tivemos leituras na mesma direção. As diferenças têm a ver com a experiência de cada um e sua história. 

Diante disso tudo a gente poderia perguntar: por que então pintar aquilo que é feio e sem mérito no ser humano? 

Entre as razões de Michael Kvium está o desejo de que suas "imagens consigam fazer com que nós nos perguntemos quem somos, fazendo com que olhemos para o quão grotescas são nossas ações."

(Uma cena de depressão, Michael Kvium, 1987)


Talvez o artista pense assim porque só reconhecendo nossos defeitos e fraquezas é que há esperança de realmente nos tornarmos mais bonitos e fortes. Talvez ainda porque, lá no fundo, nós também sejamos a criatura bonita e forte que a Irene afirmou que viu na tela, mas porque 
nossas ações em resposta às ações do outro, e vice-versa, seja o que danifique essa imagem. 

...

(perdoem o tamanho do post, eu me empolguei muito, mas prometo me podar mais na próxima...rs)

6 comentários:

Daniela disse...

Somnia, estava esperando ansiosa este post. Nossa, engraçado você ver a relação mãe/filho no quadro! Juro que nunca veria isso ali! Foi muito bom conhecer mais sobre o artista. Saiba que adorei a sua proposta de trazer obras para analisarmos. Vou esperar pelo próximo artista...

Beijos
Dani
1daystand.blogspot.com

Beth/Lilás disse...

Muito boa a sua avaliação e comentários sobre a obra deste pintor que, depois de tudo o que vc percebeu e nos mostrou, pareceu-me uma pessoa sensível e que mostra a realidade dos nossos tempos.
Essas tendências destrutivas da humanidade parece-me coisa nova para mostragem neste meio de expressão. Geralmente, na pintura, gostamos de ver a beleza. Mas, sua pergunta "Há beleza em pintar o feio?", agora, depois de ler tudo isso, respondo que; há sim!
Passei até a gostar da obra do artista, embora não a colocasse na sala de estar e sim no escritório, talvez! haha

Adorei este post, porque aprendemos com você muitas coisas sobre a arte da pintura e a reflexão nela inserida!

Quando verm o próximo post sobre isso????
bjs cariocas

Irene disse...

Gostar do bonito é muito fácil porque nos atrai,nos chama para uma contemplação.Do feio desviamos o olhar,nos causa repulsa.Acho que quem pinta o feio, bonito lhe parece.Aprendemos...a gostar do feio só depois que o conhecemos.

Somnia Carvalho disse...

Oi Dani!

que bom que voce gostou! tenho lido seu blog e to devendo uns comentarios la! adoro os textos e preciso dizer!

eu achei legal por mais sobre o Kvium, mas sinceramente acho que estrapolei o tamanho do post... na proxima acho que ser mais suscinta e melhor!

Somnia Carvalho disse...

Betíssima,

verdade? que legal! foi o que eu senti quando fui lendo sobre ele...

Eu achei incrivel essas outras telas... voce viu? a da mae estrangulando a crianca e chocante! a esposa que tem que "aceitar" tudo... esse caos que e a vida dentro de casa, em determinadas situacoes... gostei muito mesmo!

o proximo vem essa semana ainda... aqui ta frio, chuva e um tempo nhaca... a gente so fica doente e ja to de saco na lua para ser sincera! nao vejo a hora de vir a primavera e dar tchau para esse cinza!

beijocas e obrigada pelo super comentario

Somnia Carvalho disse...

É verdade Irene!

é facil a gente gostar de um Monet... e lindo mesmo! e passa rapidamente algo tao gostoso... gostar de uma pintura, ou alguem, que nao e tao bonito logo a primeira vista e mais arduo mesmo...

mas quando a gente descobre beleza por tras do feio a gente aprende a sempre ver com olhos diferentes e mais profundos...