31 março 2008

Sobre algumas afinidades eletivas ou "Purtugal" em todo canto da Suécia


(Vista de Lisboa e do Tejo, o rio mais bonito da aldeia do Fernando Pessoa)


Eu disse que faria posts sobre Milano, mas esse aqui, sobre Portugal, já estava pronto há algumas semanas e só me faltava revisar. Então, Portugal primeiro...

....

Portugal aqui dentro: eu e todas as Marias

(O grupo português Madredeus, que tem o poder de nos ligar à Portugal e aos portugueses)

Meu amor com Portugal começou, talvez, há uns 15 anos.
Antes disso, eu só tinha duas referências: uma bem negativa que formei aprendendo sobre o "Descobrimento do Brasil" e outra positiva-fantasiosa que vinha da idéia que eu tinha de pertencer a uma geração remota que tivesse vivido em Portugal, já que meu sobrenome "Carvalho" sugeria isso. 

Também tinha o fato de minha avó materna, Maria (minhas duas avós e minha mãe se chamam Maria, e eu me chamo Sônia Maria, ó Marrriia!), ter todo o tipo português: baixinha, troncudinha e com bigodichs. 

Infelizmente não sei se da história de meus antepassados. De meus avós maternos não consegui nada que confirmasse a suspeita (minha mãe carrega o Coelho). Minha avózinha, com pouca memória, só me garante que sua mãe era baiana. Fora isso, meus avós paternos morreram enquanto eu ainda era pequena, logo, minha fonte de informação pára por aqui mesmo, na imaginação. 

A verdade é que esse meu "amor" começa com uma das amigas mais queridas que tive até hoje e que, num piscar de olhos, pluft! desapareceu do mapa, a Irene Carvalho. Conheci Irene numa tarde de domingo, num encontro de catequistas. A portuguesinha bonita e simpática estava chegando da terrinha para trabalhar como Carmelita no Brasil. E eu que era da turma que achava que queria ser freira, ou algo que valesse, logo fiz amizade com ela.

Outra verdade é que com Irene eu troquei quase tudo: muito pouco sobre religião. Fizemos cursinho juntas em Campinas, estudávamos para entrar na Unicamp nos fins de semana e líamos juntas as poesias do Fernando Pessoa que ela me ensinou a amar e apreciar.
Com ela também conheci os Madredeus, Amália Rodrigues e Dulce Pontes, as rainhas do Fado Português. E essa loucura por ouvir essa língua lindamente cantada me levou com o Renato à Lisboa, em nossa primeira viagem juntos à Europa. Adorei. 



"Ai, Mouraria...": Portugal na Suécia


(Os bondes de Lisboa fazem a gente viajar num tempo em que não viveu, mas tem claro na memória)

Estar em Lisboa é como estar na casa dos seus parentes. Você se sente completamente em casa! E não é só porque os portugueses, como nós, falam muito alto, brigam com a Maria no meio de todo mundo e a mandam para aquele lugar, mas também porque têm "us mesmus bulinhus", salgadinhos, jeitinho, tudo! E aí a gente entende a coisa da colonização mesmo! Mas também vê por um lado muito bonito: a herança do passado. Vemos com quem aprendemos o jeito de ser, ou, pelo menos, parte desse nosso jeito, já que somos mesmo uma boa mistura aí no Brasil. 

Aqui na Suécia, eu esperava fazer amizade com suecos, claro! Porém, minha ilusão durou mais ou menos um ano. Já percebo que é difícil ser "amiga", messsmo, de uma sueca. Posso ser colega. Me encontrar, trocar idéias, mas demora muito a ser amiga de um deles, porque eles são muito mais reservados que a gente. 

Fiz amizades com algumas mães suecas, com as quais eu me encontrei algumas vezes. Todas elas muito, muito simpáticas e suuuper atenciosas. Masss, eu não consigo ter intimidade para ligar e dizer: "fulana, vamos bundar no shopping?" 

Fiz amizades com brasileiras, vocês já sabem. E essas poucas são muito ótimas. Contudo, uma das melhoras amizades que fiz aqui foi com uma portuguesa, de nome??? Maria! é claro, ó Maria!

Esses dias a Maria veio aqui em casa, tomou café, brincou com "u mininu Ângilu", como ela diz. E ouvir a Maria falar, brincar etc dá uma sensação muito gostosa. Resgata a saudade que eu tenho da Irene, de quem perdi o contato, me liga aos Madredeus, ao fado, a Fernando Pessoa. Foi ouvindo Maria dizer "morro!!!", no meio da rua, que percebi que Fernando Pessoa só tem esse jeito e essa expressão, porque é poeta de alma portuguesa.


Portugal por muitos olhos


(Desenho do poeta, cuja alma foi a mais portuguesa dos portugueses:  Fernando Pessoa)

E foi vivendo aqui na Suécia também que fiz amizade (virtual) com Pedro, um português que tava vivendo mais para o norte da Suécia, se não me engano em Gotemburgo, ou próximo de lá.
O Pedro tem um blog. Lá ele conta sobre sua experiência como estagiário em Informática, durante um ano, neste país. Mas o Pedro é totalmente diferente de mim. Vivemos coisas muito parecidas, mas ele é muito objetivo. Fala pouco, é engraçado demais e pega no xis da questão.
Esse texto, nas mãos dele, teria terminado no primeiro parágrafo. E teria dito tudo! Ele tem o dom! Eu não... sou daquelas que tem assunto para umas doze horas de conversa sem interrupção.

Pois, pois. O Pedro foi homenageado por uma rádio de Portugal e o blog dele fez parte de um programa que toma blogs como tema. E só para tentar encerrar esse texto sobre os portugueses, queria deixar aqui o endereço do Pedro. E uma sugestão para que vocês saboreiem o blog do Pedro, porque ele é português demais. É delicioso ler o blog. 

Hoje, eu sugiro que me dêem um pouco de crédito: ouçam um pouco do programa, "O meu blog dava um programa de rádio", no qual o "Jogo da Sueca" foi tema: vocês, com certeza, irão sentir essa coisa gostosa da qual estou falando, terão ums minutos muito agradáveis. Agradáveis não! Isso é linguajar de sueco. Deliciosos! Saborosos! SSSpetaculares!, como diria a Maria.

Foi neste programa que eu ouvi algumas músicas portuguesas que me transportaram daqui do meu cantinho da Suécia para o mundo. Me deu orgulho de me conectar com gente do mundo que consegue sentir as coisas como sinto e que consegue fazer de uma manhã comum, um dia muito especial. E fiquei agradecida à essa tecnologia que se chama internet.

Para quem quer mesmo provar essa afinidade eletiva (termo do Goethe que eu adoro e entendo cada vez mais), eu sugiro ainda, tire uns minutinhos para ouvir as canções que coloquei no link ao lado do blog. Uma mais tradicional, um fado maravilhoso da Dulce Pontes, "Canção do Mar" e a outra, de Sérgio Godinho, "Primeiro Dia". 

Boa semana para todos os Pedros e para todas vocês, ó Mariass!!!


30 março 2008

Horário de Verão na Suécia!


Pessoal,
Apesar das fotos com neve, anotem aí:
Hoje começa o horário de verão por aqui e ficaremos com uma diferença de 5 horas com o Brasil.
Agora são 10:36 da manhã daqui e aí são 5:36.

Embora pareça meio "non sense", a gente já está com 11 graus no termômetro!!! Mas o que move o horário de verão é o início dos dias bem longos. Já amanhece as cinco da manhã aqui e está anoitecendo quase sete.
Então, que venha o Verão e a Primavera!

28 março 2008

Soneto de Aniversário



(Desenho de Gaelle Boissonnard)


Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece. 

(Vinícius de Moraes)

...............

Eu sou uma pessoa que tem muita consideração pelos amigos e pela família, mas uma péssima memória para as tais datas que gosto de celebrar. Ainda assim, muitos me escreveram belíssimas coisas na semana passada, através do orkut ou de email, através do celular ou do blog. Alguns enviaram flores, como a Dri, outros me mandaram fotos e me fizeram homenagens simples e sinceras, como meus irmãos e minha mãe. 

Eu ainda não respondi, talvez eu nem precise, porque esses amigos que me têm em alta conta sabem o quanto eu fico agradecida. Entre essas demonstrações todas, está este cartão e esta poesia, enviado pela Daníssima, pelo correio, que uso para enfeitar este post.

Eu, que sou dada às emoções exageradas e sentimentais fiquei feliz e emocionada. 

Obrigada a vocês todos! 



26 março 2008

"Da janela lateral..." ou Impossível ter tudo

("Da janela lateral, do quarto de dormir" do Ângelo, vejo a neve enfeitando as árvores)

Eu vivo a cantar saudade do calor do Brasil, desde que o inverno pesado chegou por aqui... mas essa madrugada, enquanto fui pegar um copo de água, uma surpresa linda e branca pela janela: havia caído uma neve silenciosa e deixado o jardim dos fundos todinho branco de novo.
Pareciam flores nos galhos secos das árvores...

E eu pensei que, quando eu tiver de volta à quenturinha do meu país todas as manhãs, eu nunca mais terei essa paisagem para apreciar... Se o Brasil tem o calor que a Suécia não tem, o inverno daqui traz a neve que a gente nunca terá.

E fiquei pensando que em todo canto há compensações e belezas mil e que a natureza é tão bela quanto sábia.


(O banco vazio e solitário do jardim aguarda silencioso a chegada da Primavera)


Balada de Neve


"Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…"

(Augusto Gil)


(Ângelo todo feliz e quentinho cá dentro e a neve caindo silenciosa lá fora...)

25 março 2008

"É Primavééééra..."???

(Foto alheia do Teatro Scala de Milão, que por fora não é assim uma Brastemp, mas por dentro belo! hum... belíssimo!)

Gente querida,
Meu termômetro aqui, do balcão da janela da cozinha, está marcando exatos zero graus.
E, lá fora, acaba de cair neve por uns quinze minutos. Lindo! A neve deixou todas as árvores do jardim branquinhas, porééémmm...

Se ver a neve caindo e o meu quintal dessa cor é tão bonito, não é nada legal pensar que agora era pra ser Primavera!!! E que aqui tá todo mundo, inclusive a suecada branquelinha que nunca ouviu o Tim Maia antes, querendo cantar:

"É Primavééééra!!! Te amo! 
Trago esta rosa, para lhe dar!"

Foi essa a previsão que o aquecimento global deu para o feriado inteiro, não só na Suécia, mas neve em muitos países aqui por perto. Esse foi um excelente motivo para a gente fazer as malas, meio em cima da hora e ir para Milano, como dizem os italianos! 

Todo mundo esqueceu meu aniversário semana passada, quase todo mundo! minha santa mãe se lembrou! rs...  Mas eu ganhei o passeio de presente só para ficar fazendo fusquinha para vocês agora... háháháhá...

O único porobrema é que nós... esquecemos a câmera! e... eu esqueci o celular! Verdade! E... o Renato (isso é imperdoável, vindo dele!) levou um celular sem a câmera funcionando. Ou seja, tivemos uma viagem deliciosa e muita coisa pra contar, mas, but! vou ter que colher fotos alheias da internet e colar a gente nelas para vocês verem que lindeza de lugar aquele Milan, onde aquele bom mocinho, o Cacá, joga futebol. Aliás, tinha um cartaz enorme dele na frente do Duomo e do Scala de Milão!

Siiimmm! Eu conheci o Scala de Milão e da Callas! E que mérévilhosso!!! como ficavam dizendo todos os italianos aqui, quando viam o Angelito Lito Lito.

E esses assuntos todos, eu espero, serão temas de alguns posts que espero ter tempo para escrever. Por ora, vou pôr a vida em dia e desejo a vocês uma semana muito boa, com muuuuita saudade do Brasil e dessa gente que quando vê um bambino, como Anghelo, vai se jogando, catando o muleque no colo, beijocando e falando: "Mah que bello!, belíssimo!", ao contrário dos escandinavos que elegantemente mandam um "hej", de longe.

Foi uma delícia estar na Itália porque os italianos me aproximaram mais uma vez de todos aí. A Itália é a nossa cara! É mais quente (tava fazendo super 15 graus lá), tem gente alto astral, tagarela e sem se mancol, igualzinho qui nóis tudo aí.

Saudades, mas com sabor de felicidade.
Tiau bellos!

(Os créditos da linda foto alheia são da página do wikipédia, sobre Milão.)
 

20 março 2008

"Se e somente se..."

(Registro do meu empenho em celebrar "minha existência", no centro de Copenhaguem esta terça-feira. Tirar foto de si mesma sempre sai horríver! e o Ângelo tava dormindo no carrinho)

Terça-feira, dia 18,  foi meu aniversário.
E eu só me dei conta da data, quando olhei o calendário enquanto tomava café da manhã.
E foi, então, que percebi que não tinha preparado absolutamente nada, necas de pitibiribas, para esse meu aniversário. Logo eu, que sou a rainha da polyanisse e do deslumbre! 
Comecei a pensar alguma possibilidade do meu dia não passar em branco, já que era dia de trabalho do Renato e ele não poderia fazer nada comigo até a noite. E daí tive uma idéia: passar o dia em Copenhaguem com Angelito! Eu adoro a cidade e não é longe! Faria um passeio e voltava no fim do dia! 
Mas, contrariando minhas próprias sugestões do celebrar sempre, comecei a pensar em todos os "ses" que jogavam um balde de água muito fria em minha empolgação:
.

(Registro do início da forte nevasca que  deixou tudo branquinho e durou a segunda-feira toda, do quintal da nova casa)


. Se não tivesse nevado o dia e a noite anterior todinhos e realmente a Primavera já estivesse dando o ar da graça...
. Se não tivesse marcando 0 grau no termômetro e a previsão fosse de sensação de -4...
. Se o Sr. Angelinho fosse um bebê que se comportasse em carrinho e não fizesse escândalos para passear
. Se eu tivesse minhas super amigas brasileiras sempre disponíveis e animadas daí ou pudesse ligar para alguém de última hora para ir comigo, eu me animaria mais...
. Se eu não tivesse que ir até a estação de carrinho, tomar trem e passar um frio danado, até seria mais legal...
. Se eu saísse, o pessoal do Brasil não teria como falar comigo e me desejar "Feliz Aniversário"...
. Se o trem não ficasse cheio na volta no horário de pico, seria mais fácil controlar lo bebecito...
. Se os suecos e o povo por aqui não tivesse mania de ter que programar tudinho, eu até poderia ligar para alguém de "úrtima hora"...
. Se fosse aniversário de 20 anos, tudo bem, mas já tô meio velha para essa coisa de ter que comemorar aniversário!...

E foram tantos "ses", tanta coisa que pensei que estava me dizendo que era melhor ficar em casa quietinha com Ângelo do que sair...

(Registro da felicidade do Ângelo ao ver a neve pela primeira vez no aeroporto de Frankfurt, na volta do Brasil, em início de março)

Ao mesmo tempo, sentia um comichão grande e uma vontade louuuca de fazer do meu aniversário algum evento que me mostrasse que, apesar de ser mãe e viver num país frio, eu ainda sou alguém importante na minha própria vida.
E comecei a pensar nas possibilidades... e eliminar os "ses"...

Olhei o céu completamente azul e a paisagem linda lá fora,
Chequei a previsão do tempo e dizia que iria fazer sol o dia todo,
Pensei uma lista de coisas que precisaria para o Ângelo e tentei prever o que precisaria etc.
Me lembrei de como ele a-do-ra ver gente e passear,
Me lembrei de um conselho dado há muitos anos atrás por uma especialista em psicologia da Unicamp: "não importa os outros, você merece um presente no dia do seu aniversário! Se dê um presente!"
Pensei que estou realizando, hoje, um de meus grandes sonhos que sempre foi viver na Europa e poder conhecer mais dos lugares, das pessoas e da cultura daqui...

Daí... pronto! Fui a Copenhaguem! Fomos!
Passei o dia lá com um dos presentes mais maravilhosos que a vida deu a mim e ao Re, e ele se mostrou um companheirinho muito comportado e fofo! Passeamos, conversamos com algumas mães e bebês dinamarqueses...
Foi trabalhoso sim! 
Tava muuuito frio sim!
Foi cansativo também, cheguei exausta!
Mas valeu muuuito a pena!



(Registro do maior, mais belo e mais duradouro arco-íris que já vi na vida, aqui em Malmö, no domingo, depois de muita neve na noite do sábado)

(Registro de algumas das coisas adoráveis da capital da Dinamarca: muita flor e muita gente comprando maços e maços de flores)

Me dei de presente cruzar a fronteira da Suécia com a Dinamarca e ficar olhando para o Mar Báltico, quase infinitamente azul.
Me dei de presente comer um crepe de chocolate, típico das ruas de Copenhaguem,
Me dei de presente passear por gente bonita, ou feia descolada, gente que não ficou em casa porque tava menos alguma coisa no termômetro,
Me dei de presente viver e celebrar o dia em que lá na pacata Pedrinhas Paulista minha querida mãe e meu querido pai me ganhavam de presente.
E foi lindo e delicioso sentir que eu consegui me pôr acima dos "ses" todos que o dia-a-dia me coloca.
E foi saboroso me lembrar e aplicar a regrinha que a professora de português ensinava sobre não lembro mais o que, mas cuja frase nunca me saiu da cabeça... só deixarei de fazer algo que tenho vontade "se e somente se" me for impossível.



(Registro de mais uma coisa deliciosa em Copenhaguem: as "bagueterias" chiques, gostosas e lotadas)

17 março 2008

"As duas Fridas" pulsantes em nós


"As Duas Fridas" 1939, Frida Kahlo

Esse fim de semana eu tava falando com minha amiga Flávia, a Xu, que vive aqui em Malmö, sobre a Frida. Folheamos um livro lindo que tenho aqui e depois ficamos a comentar o filme que eu havia lhe emprestado.

A verdade é que esses dias muita coisa que pego tem algo sobre Frida Kahlo e eu, que sempre quis fazer um post a respeito da obra dela e outro sobre o filme, vou deixar essa idéia perfeccionista de lado e pôr uma pintura de Frida aqui.

A obra de Frida fala por si mesma.

Claro que se você conhecer a biografia sofrida dela entenderá porque sua obra dói, mas eu acho que suas telas podem dizer milhares de coisas diferentes a milhares de pessoas diferente, assim como qualquer obra de arte.

Nesta tela aqui, "As duas Fridas" há muito que falar se eu pensar em crítica de arte. É uma tela imensamente rica, está inserida num contexto artístico e histórico super importante. Mas deixemos esses ismos.

Se olhar para a tela verá uma mulher bipartida. Uma que sofre mais. Uma que sangra e chora mais. Uma que se machuca mais.

E olhando-a me vem à cabeça diversos diálogos que tive - só para lembrar os muito recentes - com grandes amigas e conhecidas. Todas elas, sem exceção, lutam consigo mesmas. Todas elas vivem entre a polaridade de sentirem-se muito bem num dia e, em outro, sentirem-se mal. Eu estava pensando que uma mulher nunca é uma mulher só. Ela é sempre essa luta entre duas: a muito feliz e a muito triste, a muito realizada e a frustrada... talvez todas as pessoas sejam assim, com temas mais ou menos doloridos para pensar.

A vida de Frida Kahlo poderia dar uma tela em negro ou em vermelho, mas ela tem muita cor. Apesar de doída é viva. Sua obra também é dupla, na minha opinião. Não sinto tristeza ao olhar suas telas, sinto uma ardência... Uma ardência que, eu creio, está em todo aquele que não se contenta apenas em bater o cartão do dia e não pensar em mais nada. Está em todo aquele que pulsa e não só respira.


Abaixo um comentário mais analítico a respeito da tela do qual gostei:

"Pintado pouco após o divórcio de Diego, sinaliza o corte dilacerante que a realidade lhe impõe. Frisa objecto de amor de Diego e o seu alter-ego, têm expostos os seu corações ligdos um ao outro apenas por uma artéria. A Frida mexicana, amada por Diego, tem na mão um amuleto com a imagem do marido. A parte rejeitada europeia de Frida corre o perigo de se esvair em sangue até à morte. Essa hemorragia narcísica quando não é estancada desemboca na melancola, a menos que o trabalho de elaboração possa produir uma assunção poítica do desamparo. "Porque o chamo de meu Diego? Nunca foi, nem será meu. É dele mesmo." (Rachel Sztajnberg)

15 março 2008

Celebrar o fato de poder celebrar


(Eu, Re e Ângelo, em casa no Brasil, fevereiro de 2008)


Hoje, 16 de Março, o Ângelo faz oito meses. 

Eu sei. Oito meses não é assim uma idade que a gente comemooore, mas eu queria celebrar essa data. Eu tava pensando e acabei por concluir que não gosto muito dessa idéia nossa de comemorar apenas algumas das muitas datas importantes da vida. E eu também tenho amigos que têm um bonde de argumentos para dizer o porquê odeiam comemorar quaisquer aniversário: deles ou de outrém. Eu respeito.

Mas, embora, eu continue gostando desses amigos, acho o fato de não gostar de comemorar, uma "perda de". Respeito, mas acho bobagem porque a vida passa, passa, corre tão depressa. E poder abraçar, beijar apertadinho e dizer "te amo!", "te amo muuito, você não imagina o quanto é especial pra mim", pode ser uma oportunidade de ouro.

Me lembro perfeitamente do único aniversário meu que teve festa em casa, enquanto eu era criança. Foi o de sete anos. Não sei o porquê direito, acho que naquele ano, meus dedicados pais tinham algum dinheirinho a mais. Então, resolveram chamar a família toda. Veio até o tio de Curitiba, o tio "rico" da família. Nossa! E acho que foi ele quem me deu um liquidificador de brinquedo. Não me lembro dos outros presentes. Eu até sinto por isso, mas a verdade é que minha mente naquela época, não tava preparada para pensar nos presentes amorosos, ainda.

A festa foi simples, nada parecido com as festas que a vizinha Ivonete dava (cheia de brigadeiros e beijinhos, Coca-cola etc), mas, para mim, foi demais! Tava cheia de amor!

Naquele dia, vendo todos chegarem era como se eu tivesse certeza do quanto todo mundo me amava. Uma bobeira, eu sei, mas é a verdade.

Depois disso, não teve mais festas. Não porque minha família não se importasse, mas porque, lá em casa, o pessoal comemora, mas não assiiim, com tanta força. Essa mania de comemorar, de celebrar eu comecei depois de ir para a Unicamp e viver na moradia estudantil. 

Lá a gente fazia festa até no dia da faxina, às terças-feiras. Eu, Dri, Wal e Ériquinha cantávamos juntas, jogávamos água uma na outra, limpávamos a casa toda e sentávamos à pequena mesa para comer juntas. Ao menos uma vez por semana comíamos juntas. 
 
Fiz festa de todos meus aniversários, desde então. 

Todos os anos chamo os amigos para uma comemoração e junto a família para outra. Não é que eu comemore o meu aniversário, propriamente dito, mas o fato de eu ter amigos. O fato de eu ter meus entes preciosos no almoço de domingo. O fato de eu ter coisas a agradecer. E sempre peço para ter na medida certa. Para que eu não me engrandeça demais ou esnobe demais. Para que eu saiba o valor dos pequenos ganhos.

E adoro comemorar meu aniversário de casamento. E o de namoro também. E adoro pensar que eu posso brindar o primeiro mês de casa nova ou o primeiro ano na Suécia, ou o fato de termos pregado um armário na parede.

Celebrar significa atualizar. Você recorda um fato e é como se, em certo sentido, o vivesse de novo. Adoro o significado da palavra, desde a época que participava da comunidade. E nessa época eu gostava muito mesmo de pensar na Páscoa. Não no sentido de obrigação de nada, não no sentido dos ovos de Páscoa (que eu nem gosto), mas no sentido de renovação. Pensar na Páscoa - passagem - para algo novo. 

No sentido cristão ela retoma, primeiro, a passagem de Moisés e do seu povo (que vivia como escravo) por entre as águas do Mar Vermelho, em direção à Terra Prometida. Em segundo, no sentido mais atual, celebra a passagem da morte (de Jesus) para a Vida. 

Para mim, sempre é tempo de Páscoa. Sempre é tempo de celebrar uma mudança. Uma passagem. Celebrar cada dia em que a vida superou, mais uma vez, a morte. E que estamos aqui. E que temos, ao nosso lado, aqueles que amamos. E de termos novamente a chance de dar aquele afago que sempre nos prometemos, mas temos vergonha de dar. E deixar as coisas ruins serem levadas com ás aguas do tempo.


(Ângelo tentando pegar a chave que abre a porta do armário, que eu tive de esconder depois disso)

E por essas razões todas, hoje, quero celebrar com vocês o fato de eu ter aqui comigo e com o Renato essa peça única e milagrosa que se chama Ângelo. Celebrar esses meses em que ele passou a fazer parte do mundo e do nosso mundo. Celebrar o fato dele crescer saudável. De estar querendo andar e descobrir o mundo, de estar balbuciando suas primeiras palavras. De sentar nas perninhas e dançar, quando brinco de tocar violão. Quero celebrar o fato dele olhar a nós e os parentes todos com tanto amor e nos fazer crescer como pessoas. Celebrar a natureza perfeita e sábia.

Hoje eu tenho uma ocasição perfeita, ainda que oito meses possa parecer apenas mais uma data, para celebrar o dom do amor e da vida, ou simplesmente o fato de simplesmente poder celebrar.

(Vídeo caseiro e "simpri" de tudo: Eu e Angelinho Linho Linho, felizes da vida, explorando o piso do novo ap.)

13 março 2008

As coisas simples


(Frida Kahlo com granizo)


A Espantosa Realidade das Cousas


"A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade."

Fernando Pessoa, Alberto Caeiro

10 março 2008

Lá na minha terra...

("Minha terra tem Palmeiras"... - Ângelo curtindo o sol e sombra brasileira)

Depois de um ano vivendo na Suécia e um ano fora do Brasil, a última visita teve um sabor de "Canção do Exílio".

Eu tava falando com minha amiga Mafer sobre a diferença de sentimento dessa minha ida e daquela primeira, em outubro do ano passado, e percebi ainda mais o que eu havia dito daquela primeira vez, porém, de forma mais intensa.

Sou estrangeira aqui.
Sempre serei.
Como estrangeira nunca conseguirei sentir, nem viver, nem ser, como um sueco. Por isso mesmo consigo ter um olhar sobre esse lugar que quem sempre viveu aqui não tem.
Sou louca pelas árvores secas do inverno, adoro respirar o ar puro da manhã e viajar de trem. Contudo, me irrita ter que prever o imprevisível, ser organizadinha como os suecos são e resolver tudo por telefone, ao invés de falar pessoalmente.



("Minha terra tem": sol o ano todinho)

Se você já viveu fora de seu canto um tempo, você entenderá o que eu quero dizer.

Ao sair, você volta diferente.
Não se encaixa muito mais na rotina que sempre viveu e se irrita com coisas que ninguém mais nota, como, por exemplo, o uso exagerado de sacolinha plástica no supermercado. Por outro lado, se encanta, tal qual um estrangeiro ou um viajante, com coisinhas que ninguém mais dá bola:

Dessa vez eu me apaixonei novamente pelo Brasil e por suas coisas. E, como estrangeira, suspirei ao olhar os coqueiros - tão exóticos -  à beira das praias na Bahia, torcidos e dançando ao som do vento. E tomar água de coco! hum... que delícia!

Como boa filha que à casa retorna, abracei apaixanadamente a família e os amigos e tive uma dor de saudade já no abraço de chegada.



("Minha terra tem": amigos que falam a mesma língua que eu - Ângelo curtindo os amigos Fernando, Max e Pedro)

Mas, como caixeira viajante, senti o prazer de pisar em terra sueca de novo e cruzar a fronteira na grande ponte que separa Malmö de Copenhaguem. Olhar para tudo e ter orgulho de poder viver essa "vida dupla".

Ainda assim, é estranho como nada mais é como antes.

Tudo é lindo aqui e imperfeito.
Tudo é imperfeito aí, mas tão gostoso.
Acho que a diferença é que na "minha terra tem Palmeiras, onde canta o sabiá...", como bem lembrou a Mafer, ao citar o Gonçalves Dias.

Acho que só hoje entendo bem uma lição aprendida no cursinho sobre a Canção do Exílio, desse poeta. Só no exílio é que o "ser estrangeiro" e o pertencer a uma outra terra nos faz ver o mesmo com outros olhos. 

Embora viver fora te dê a estranha sensação de não se sentir mais pertencendo a lugar nenhum, o local onde você menos se sente estranho é sempre o seu ninho. 

Hoje eu olho para o Brasil de forma diferente. Assim como para a Suécia.
Nem melhor, nem pior. Apenas de forma estranha.



("Minha terra tem": gente que me entende e me acha "o máximo", como minha vó Maria e a vavá)

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 


Gonçalves Dias

06 março 2008

Ir e voltar: entre dois amores


Chegamos de volta do Brasil ontem.
E para variar o cardápio das nossas voltas, os funcionários do aeroporto de Frankfurt estavam em greve e nossos vôos atrasaram. 
No entanto, vou começar esse retorno sem chorumelas.
Porque uma viagem longa assim sempre é muito cansativa e o retorno exige novamente uma readapção.

É verdade que estranhamos o tempo.
Saimos dos 30 para chegar por aqui com neve.

É verdade também que estranhamos a falta de gente e as babás perfeitas do Angelinho.
E ele também.

É verdade que ficamos com a um nó na garganta de pensar a ausência.
Ausência daqueles que amamos e das coisas que gostamos de ter e fazer.

Uns dois dias antes de voltar já estávamos com uma certa angústia da separação.

Mas, tô aqui escrevendo de frente para a janela do novo apartamento onde estamos.
E se tudo está por fazer, comprar e arrumar, tenho uma vista linda daqui de onde estou.

Apesar do frio, o céu está claro e azul. E assim tem ficado até umas seis e meia da tarde.
Tudo mudando para a chegada da Primavera.

Se tenho tudo para acertar neste retorno, tenho também muito para viver. Para aprender. Para curtir e depois morrer de saudade.

Importante mesmo é que aproveitamos o que tinha de bom daí nesses vinte e poucos dias.
E agora cabe-nos viver bem o que temos aqui.
Toda a diferença!
Toda a rica, dura e deliciosa diferença!

Quero me lembrar do Ângelo gargalhando de fraldas no Brasil e, ao mesmo tempo, saber que ontem ele começou a dar gritos de alegria ao ver a neve pela janela do aeroporto.
Quero saber que tudo me é possível, seja a 30 ou zero graus.
Toda a alegria,
todo desejo,
toda esperança.

Viver só me é dado uma vez.

Espero encontrar alguns de vocês aqui, embora eu tenha sumido esse tempo.
Um grandíssimo beijo, um abraço de "òtima semana para todos nós!".

E!!! Fernando Pessoa para começar a nova fase.

.....


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.


Fernando Pessoa.